segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O despertador

Sete horas da manhã e o despertador tocava. Como de costume, apertou o botão para fazê-lo parar. Claro que não parou e ela foi obrigada a se levantar. Fazia uma semana que descobrira essa maravilhosa ferramenta em seu radio relógio, o botão para desativar era transferido todos os dias. Ela tinha que programá-lo antes de dormir. Antigamente, sempre se atrasava, mas com um sino insuportável soando em seu ouvido (ela nunca lembrava o botão que escolhia) não tinha como.

No entanto, toda essa tecnologia tinha um porém, sempre acordava de mau humor e chegava na faculdade com uma cara de assustar qualquer um que arriscasse um “bom dia”. Hoje não tinha sido diferente, Juliana acordou, pegou qualquer roupa, afinal, nada de interessante acontecia naquela Universidade. Juntou os restos dos trabalhos que não conseguiu terminar na noite anterior, tacou tudo em uma bolsa e foi pegar o metrô.

Um senhor perguntava sobre o aumento do preço do bilhete e discutia com a vendedora o absurdo que era ter que pagar os impostos que pagava, receber a miséria que recebia e ainda ter que desembolsar uma fortuna pra dar uma voltinha. Ah, o sangue de Juliana subiu até a última veia de seu couro cabeludo. “Como assim esse senhor acorda às cinco da manhã (típico exagero que acompanha o mau humor) pra dar uma voltinha? Como não bastasse dar sua voltinha diária, ainda discute horas com a vendedora!” Juliana só queria um bilhete. Respirou, pensou que podia ser seu avô, isso sempre funcionava, e arriscou até um sorrisinho para o tal revoltado. Dez minutos depois, conseguiu o tal papel.

Metrô era rapidinho. “Mas por que raios mesmo ele não vai até a Asa Norte?”. Preferiu nem pensar nisso. Relaxou e foi separando o dinheiro para ônibus. Passado todo esse suplício, mais a parte de ficar em pé em um lugar lotado de gente que, claro, tem que usar mochilas para ir à aula “Será que ninguém percebe que esse bagulho ocupa quase o dobro do espaço de uma pessoa?”. Ainda pensava em modo de cortar todas as alças daquelas bolsas, quando chegou ao seu destino.

Andou, andou, andou. Chegando na faculdade, encontrou um monte de gente. Gente que adorava ver e mais um tanto. Deu seu oizinho bem chocho de sempre e entrou pra aula, não gostava de papo de manhã, só lembrando, tudo culpa do despertador. “Juliana, você terminou a redação?”. Só virou monossilábica: “Uhum”. “Me empresta?”, “Toma”. Podia ser ranzinza, mas era uma boa pessoa, às vezes até boa demais. Tava meio de cabeça cheia. Na aula anterior, a professora a mandara refazer mais da metade de tudo que a fizera perder seu final de semana. Isso ela não esquecia. Antes que tivesse que olhar para a cara da megera, saiu da sala para fumar um cigarro.

“Maria, você não viu?” “Não Fernanda, você não tá dizendo nada com nada” “É o que eu te disse! Foi sábado!”. Juliana sentou e pegou o isqueiro. Conhecia as duas de vista, mas nunca tinha conversado com elas. Os bancos estavam vazios, todo mundo em aula. Só alguns funcionários, as pessoas do C.A e as três ocupavam os corredores. Juliana achava ridícula tanta animação às oito horas da manhã, sentou no seu canto, mas impossível não ouvir.

“Maria, eu te confirmo! Ela me contou hoje. Foi logo depois que a gente saiu do bar. Ela entrou no carro dele e eles foram, eu to dizendo” “Mas Fernanda, isso é impossível, mesmo porque eles nem se falam.” “Maria, olha estou te contando o babado do ano e você desdenhando?” “Fernanda, eu não acredito que o Barriga faria isso.” Juliana deu um sobressalto que nem foi percebido pelas duas entretidas. Ela conhecia esse nome, ela conhecia o tal Barriga. Aliás, sua amiga conhecia bem melhor que ela. Eles estavam juntos há quatro meses. Não é tempo de se admirar, mas estavam juntos. E há quem diga que os começos são sempre melhores.

“Maria, eles levaram sim, eu vi a Júlia tirar da bolsa, mas nem digo mais nada, você não vai acreditar mesmo”. “Fernanda, eu tô passada, só isso.” Juliana tinha uma certeza, sua amiga não se chamava Júlia, tampouco estava com ele no sábado à noite, já que as duas estavam no bar quando ele saiu dizendo que ia pra casa. “Para casa? Saiu foi com essa tal de Júlia direto pro estacionamento. Esses homens não prestam mesmo. Bem que eu avisei que Barriga era lá apelido de gente. Pode ser o homem que for, sendo chamado desse jeito, sério, não rola nem um abraço.” “Mas Fernanda, vamos pra aula então, depois você termina de me contar.”

Juliana apagou o cigarro. Pegou o celular, lembrou-se das horas, guardou de novo, não queria acordar Camila, ainda mais pra falar uma coisa dessas. O tal Barriga não tinha ido pra casa como dissera. Ele foi pra estacionamento com uma tal de Júlia fazer sabe-se lá o quê com o trem que ela tirou da bolsa. Tudo pra destruir um relacionamento estava lá. Mas também tudo pra fazer a pior confusão do mundo e deixar a amiga triste por anos.

“Não quero Camila chorando. Vai que nem é nada.” Juliana fingiu apagar da memória, voltou pra sala e pro seu mau humor. Primeiro mostrar o seu trabalho pessimamente refeito, depois pensava se queria mesmo passar adiante uma conversa para a qual nem havia sido convidada. “Vai que nem era o Barriga. Com certeza existem outros barrigudinhos. Melhor deixar os dois se entenderem”.


Ana Maria

Era Ana Maria como tantas outras Anas que também eram Marias. “Nomezinho chocho”, pensou. Aliás, sempre se perguntou por quê sua mãe lhe dera esse nome. Na noite daquele dia, então, teria que mostrar pro mundo que era dona de tamanha falta de criatividade. Exatamente à meia-noite estaria numa fila gigante de garotas bem arrumadas, maquiadas e com lindos vestidos, quando ouviria o que sempre sonhou em não ter que ouvir mais: “Ana Maria Soares da Costa”. Nesse momento, teria que sorrir mais que antes, porque todos estariam olhando para ela, teria que esperar infinitamente até chamarem o próximo nome da lista para enfim, quando ninguém mais estivesse olhando, poder xingar o quanto quisesse.

Mas que coisa essa de ter crise com o nome logo horas antes do tão esperado baile de formatura. Tudo bem que nunca gostou, mas nunca quis morrer como queria agora. “Deve ser nervosismo, logo passa”. Mas só fez piorar. Ana ligou a televisão, pelo menos se distrairia. “Bolinhos Ana Maria, para aquele lanche especial”. “Ah, não!”. Desligou na hora. Foi ler um pouco. Desde que chegou da escola estava nessa de não querer mais o nome que tinha. No dia anterior marcou salão, comprou vestido, sapato, tiara. Seria a mais linda da festa, certeza. Porém de manhã percebeu que tinha alguma coisa errada. O vestido estava perfeito, o sapato também, a maquiagem e o cabelo certamente ficariam igualmente lindos, mas uma coisa ela não ia poder arrumar. Não tinha como passar um pó no próprio nome!

“Mariazinha, vem almoçar”, era sua mãe chamando. A própria, a causadora de toda a desgraça. E “Mariazinha”? O sangue lhe subiu a cabeça. Belo dia para se inventar um novo apelido. Como se o nome já não fosse por si só a união de toda sem gracice do mundo. Foi almoçar bem de má vontade. Beliscou um pouco do arroz, colocou uma coxinha de frango no prato, mas só para dizer que pegou uma. A única coisa que fez foi brincar com os pedaços. Pela sua cabeça não parava de passar o momento que teria que se dirigir para o palco ao som do seu... Não queria mais imaginar. “...da Costa”, ufa, teria acabado. Ia dançar e ia sair dali, não podia ter um ataque de nervos por causa disso, coisa mais besta.

Vinte minutos depois do almoço, só mais exatamente cinco horas e quarenta minutos. O telefone toca: “Oi tia Inês, a Ana está?”, era Juliana, sua melhor amiga desde que podia se lembrar. “Vou chamar, Ju. E a sua mãe, como está?”. Ana Maria escutou de longe, pronto, já viria, se preparou, “Ana Maria, telefone”. Falou com a Ju o mais rápido que pôde para evitar a repetição de Anas e se controlou para não cuspir fogo toda vez que o escutava.

Foi ler mais, cansou, foi ver TV. Sessão da tarde. Até aí ótimo, mas então veio a propaganda. “Filha, aproveita que deu uma pausa aí e entrega esse livro na vizinha”. “Mas mãe...”, “Vai lá, Ana Maria Soares da Costa, é só a vizinha, e pode tirar essa cara de birra, gastei uma fortuna pra você ficar de marra na formatura?”. Não podia acreditar, foi tudo de uma só vez, o nome completo! “Respira fundo... Não mãe, parei” e foi entregar o tal livro.

Eram quatro horas, começou a se arrumar para ir ao salão. Ele estava marcado para cinco da tarde, mas como pegaria o metrô e mais um ônibus, queria sair mais cedo. Tomou banho e foi se vestir. No meio de suas roupas encontrou uma blusa da Pequena Sereia que ganhou quando criança. O desenho era lindo, nem se lembrava que ainda a tinha. Virou-a para poder dobrá-la. O sangue lhe subiu a cabeça. Será que era assim todos os dias e hoje estava especialmente irritada ou será que o nome lhe perseguia mesmo? Até atrás da blusa. “Que moda ridícula! Até parece que algum estranho vai chamar só porque já sabe uma forma de você olhar”. Dobrou com raiva, pegou a primeira coisa que viu, vestiu e saiu de casa.

Foi resmungando até o cabeleireiro. Quando chegou, mais uma: “Boa tarde, dona Ana”. “Boa”. “Quer dizer que vai se formar essa noite, é?”. “É”. “Infelizmente não vai dar tempo de trocar de nome antes”, pensou. Mas que droga de cisma, pior que agora não conseguia mais tirar isso dos pensamentos. Só conseguia ver a hora que seria chamada à meia-noite. Ficou tão entretida com seu desespero que nem viu o tempo passar. Olhou-se no espelho com indiferença, pagou e voltou para casa.

Esquinas

Tirou o espelho da bolsa. Arrumou a mecha de cabelo que insistia em cobrir seus olhos. Aproveitou para retocar o batom cor de pitanga e tirou a última balinha de menta que restara da noite anterior.Ao longe, avistou um carro que lhe era familiar. Sabia que ele passaria vagarosamente, analisando todas as garotas da rua antes de parar na sua frente. Fazia isso para lhe provocar ciúmes, mas sabia que era por ela que viera. Ajeitou a minissaia e o sutiã, deu um suspiro desanimado e entrou no carro. As luzes da cidade passavam rapidamente fazendo contraste com o tédio em seu olhar. Ele não puxaria conversa agora, nem depois. Ela não fazia questão.

Chegando no apartamento mal iluminado, nenhuma cerimônia ou preparação, ele não era do tipo que se importava com preliminares. O quarto era o retrato do desleixo. Lençóis amassados jogados em um canto da cama e cortinas carcomidas fedendo a naftalina. As janelas, que pareciam nunca terem sido abertas, tornavam o ambiente ainda mais abafado e incômodo.

Ele a agarrou por trás. Apertou seus seios e soltou em seu pescoço um bafo acre para, em seguida, puxar-lhe a saia com vigor. Ela estava farta de tudo aquilo, mas iria até o fim. Sempre ia até o fim. Respirou fundo, desvencilhou-se das mãos dele e dirigiu-se para o banheiro que ficava no canto oposto do quarto. Olhou-se no espelho buscando uma mulher, mas o que encontrou foi apenas um borrão de maquiagem e um par de olheiras. Não queria estar ali. Não hoje.

Batidas na porta.

- É pra hoje?

Concentrou toda a paciência que ainda lhe restava e respondeu da forma mais doce que conseguiu. Por fim, abriu a porta e deixou-se conduzir até a cama. As carícias rudes recomeçaram, mas ela parecia não se importar mais. Gemeu e sussurrou umas e outras coisas já decoradas enquanto passava os olhos pelos objetos espalhados no chão. Queria fugir dali.

Parou por um instante, distraiu-se com um par de tênis marrom. Os cadarços embolados e encardidos a fizeram lembrar das velhas botinas de seu pai. Foi tomada por uma nostalgia atípica que inebriou seus pensamentos. Lembrou-se de sua vida antes de se entregar aos braços de homens desconhecidos. Fechou os olhos e visualizou sua primeira vez, com o namorado de quem tanto gostava. A situação era completamente diferente da que vivia agora. A pele do rapaz era quente, e ele cheirava bem.

O pensamento foi, bruscamente, interrompido por um puxão em seu braço. Ele roçava seu corpo suado no dela e mantinha uma expressão maliciosa no rosto. Parecia indiferente ao seu prazer, só queria se satisfazer.

A repetição interminável dos movimentos a fez lembrar das batidas ritmadas da colher de pau misturando a massa de um bolo. O de chocolate era seu preferido. Sem perceber, deu um sorriso que foi o suficiente para que ele acelerasse.

- Tá gostando, né?

Ela meneou a cabeça positivamente, assentindo, distraída. Continuava imersa em suas lembranças. Há quanto tempo não comia um bolo de chocolate gostoso. Sua vida havia mudado muito. Ela havia mudado... No entanto, não se arrependia. Os programas lhe davam um bom dinheiro embora a solidão em meio a tantos homens a fizesse questionar-se. Já havia cogitado largar tudo, recomeçar, mas esses planos não passavam de utopia.

Voltou à realidade quando percebeu que o corpo que pesava sobre o seu estava imóvel. Alívio.

- Pronto. Acabou.

- É. Acabou...





Com Ana Clara Martins, Mariana Haubert, Manuela Marla, Isabela Horta e Maíra Moraes

AT 660

Oito horas da manhã começava a aula. Dois ventiladores na parede direita, para quem entra na sala pela grande porta de madeira. . logo ao lado da porta, um quadro negro que se extende até a extremidade da parede, essa, a que fica bem atrás de quem está entrando.
Uma grande mesa bem na frente, com a maior cadeira, a mais acolchoada, a mais azul.
Cinquinta carteiras desconfortáveis enfileiradas de frenhte para o quadro. Já passavam dez minutos, estavam atrasados.
Entram duas meninas meio que timidamente. Mas logo se sentem à vontade quanto percebem que estão sozinhas. Oito e vinte e os cadernos estão nos lugares. A cadeira azul está preenchida. A sala está completa. Oito e vinte e cinco e a aula começava.

De vez em quando


Até que de vez em outra achar tudo bonito deixa a gente meio boba e escrevendo umas coisas de lindeza. E num dia desses ainda existe alguém que te pede para escrever sobre cor. É isso que sái. De vez em quando é bom, antes fosse sempre.

O Azul

Azul é o céu, azul é mar, azul é calma, azul são ondas. Azul é descanso, é doce caseiro. É uma soneca tirada depois de um farto almoço, é o vento. É o farfalhar de folhas, é uma brisa à beira-mar - azul. É o vôo do pássaro, é uma jangada. No mar. Azul. É um caderno de segredos de menina, é um abraço que pára qualquer tempestade. É cor de caneta, da caneta que escrevo.



O Verde

Penso na cor verde e não tem jeito, é uma árvore. Com troncos bem grossos e uma vasta copa. Logo me vem a sombra e penso nela enorme. E a grama, que ocupa toda essa sombra, e nas formigas que lá passeiam. Chega então todo o perfume do lugar. Não sei por quê, mas penso em livros, penso em histórias fantásticas, em contos de fadas, e termino em um beijo. Um primeiro beijo, dado com todo amor e timidez do mundo.


O Preto

É morte, é luto é escuridão, é ruim, desespero. Digo que não. É escuro, certo, mas é meditação. Quando se pára depois de um dia agitado e se percebe que se está vivo. Momentos pretos podem ser tristes, mas mostram que existe o branco. Não esqueço noite, mas não triste, uma estrelada, uma que faça descançar os olhos de luz e embale para um outro sol.