A veiculação de propagandas de bebidas alcoólicas virou alvo
de discussão intensa desde os últimos meses do ano de 2007. Um dilema
entre transmitir as propagandas para divulgar novas marcas e correr o
risco de aumentar o consumo dessas bebidas e conseqüentemente todos
os malefícios que o acompanham tem invadido tanto os setores públicos
quanto o ambiente privado das empresas.
Primeiramente convém ressaltar a importância dada ao consumo
de álcool no Brasil. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o Brasil
é um dos países que mais consomem bebidas alcoólicas no mundo. Em 2005, 12,3% das pessoas com idades entre 12 e 65 anos eram dependentes de bebidas alcoólicas nas 108 cidades brasileiras com mais de 200 mil habitantes. Os dados são do II Levantamento Domiciliar sobre Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil da Secretaria Nacional Antidrogas - Senad.Outro dado apontado pela mesma
pesquisa mostra que houve uma redução na idade em que se inicia o
consumo de bebidas, atualmente por volta dos 14 anos. Muito disso é
atribuído ao exemplo dado dentro de casa. Crianças crescem vendo os
pais beberem e se acostumam com o comportamento.
Essa naturalização, no entanto pode trazer conseqüências
alarmantes. O jovem começa a beber muito cedo, não conhece ainda seus
próprios limites. Isso resulta em exageros que levam a violências
excessivas e muitos acidentes. Em 2002, 75% dos acidentes fatais de
trânsito são associados ao uso excessivo de álcool. As mortes chegam
a quase 29 mil por ano e cerca de 40% das ocorrências policiais
relacionam-se ao abuso de álcool. Dados mais recentes, mostram que
entre 53% e 88% dos motoristas que saiam de bares apresentavam algum
nível de álcool no sangue. Isso se deve ao fato de álcool ser
associado a lazer e diversão.
Além de acidentes o consumo abusivo da substância leva a
inúmeros problemas de saúde. Problemas neurológicos, pancreatite,
cirrose, hipertensão arterial e câncer do trato respiratório e
gastrointestinal são apenas alguns exemplos. Todos os anos o governo
despende grandes somas de dinheiro no tratamento dessas enfermidades.
Nos jovens, quando o consumo inicia-se cedo, são comuns problemas de
memória .
O grande mal do consumo de bebidas alcoólicas é não saber
quando parar. E não há uma forma segura de garantir que uma pessoa
tome apenas aquilo que não causará danos a si e a outros. Há então um
dilema nas propagandas. Como assegurar que as pessoas as vejam, se
interessem, consumam, mas não abusem? O CONAR - Conselho de auto-
regulamentação publicitária impõe uma série de restrições para as
publicidades, algumas delas recentemente implementadas.
Há uma enorme tentativa de excluir menores de idade. As
propagandas não devem ser de forma alguma voltadas para esse público,
não devem conter animações, crianças ou qualquer outro elemento que
atraia a atenção daqueles que possuem menos de 18 anos de idade. Isso
fez com que a propaganda da Brahma, que utilizava animação de siris, sofresse
certa censura.
Além do "Princípio de proteção a crianças e adolescentes" que
procura suavizar o consumo precoce, o Código ainda possui
um "Princípio do consumo com responsabilidade social" que contêm sub-
itens que condenam a associação de bebidas à sexualidade, ao controle
emocional, à coragem, desempenho profissional, condução de veículos
ou atividades esportivas. O princípio visa não induzir ao consumo exagerado
ou irresponsável. Esses itens entraram recentemente em vigor.
Enquanto as propagandas que utilizam mulheres como alvo de desejo e
estímulo ao álcool são inúmeras e bastante conhecidas, aquelas que não
utilizam esses recursos são um tanto quanto novas.
As publicidades mais difundidas são as de cervejas. Apesar de
entrarem em uma categoria diferente de bebidas alcoólicas, entrando
no anexo de "Cervejas e Vinhos" são igualmente regulamentadas. Até
mesmo porque, segundo o "Movimento Propaganda Sem Bebida", organizado
por civis, "dos cerca de U$ 106,000,000 gastos em propaganda de
álcool na mídia em 2001, 80% foi em cerveja. Da mesma maneira, o
consumo de cerveja representa 85% das bebidas alcoólicas consumidas.
É uma bebida alcoólica e tem um papel importante em muitos dos
problemas relacionados ao álcool, principalmente no que diz respeito
aos jovens."
A questão, entretanto, volta à tona, como estimular um
consumo se não se sabe até onde o consumidor pode ir? E até onde as
propagandas de fato influenciam? Ainda segundo o "Propaganda Sem
Bebida", grande parte das crianças e jovens de 10 a 17 anos assistem
as propagandas, pois dizem se interessar pela forma que são
mostradas. Esses jovens tentem a ter um consumo mais precoce. Estudos
mostram que, a cada mês que surge uma propaganda nova, o consumo de
álcool aumenta em 1%. A indústria não se responsabiliza por qualquer
dano causado pelas bebidas. Assim, deixa de assumir sua
responsabilidade social. Sendo o álcool algo de tanto risco, sua
divulgação não deveria ser estimulada.
O Artigo 1º do CONAR deixa claro que "Todo anúncio deve ser
respeitador e conformar-se às leis do país; deve, ainda, ser honesto
e verdadeiro". A indústria do álcool não pode, portanto iludir seus
consumidores, associando alcoolismo apenas a coisas boas. Ainda que o
consumo tenha dois lados e os anúncios apenas omitam o lado ruim, o
Artigo 23 esclarece que "Os anúncios devem ser realizados de forma a
não abusar da confiança do consumidor, não explorar sua falta de
experiência ou de conhecimento e não se beneficiar de sua
credulidade". Logo as propagandas deveriam ser mais esclarecedoras.
As empresas rebatem: "A regulação da publicidade não só é
aceitável, é fundamental, e entendemos isso há 30 anos. A única coisa
que queremos é que seja discutida democraticamente dentro do
instrumento que já existe para regular a publicidade (o CONAR), e que
a gente evite a censura", disse Dalton Pastore, presidente da
Associação Brasileira das Agências de Publicidade (Abap). Para
Gilberto Leifert, presidente do Conselho Nacional de Auto-
Regulamentação Publicitária (CONAR), a "propaganda não faz mal à
saúde, faz mal é não saber consumir. Não conheço medidas recentes
implantadas que aumentem o controle do Estado sobre o acesso dos
menores e de motoristas a bebidas".
Talvez uma solução possível seja permitir apenas a divulgação
das marcas nos bares, ambientes já destinados ao consumo de bebidas
alcoólicas, assim, crianças não seriam atingidas pela publicidade.
Outra sugestão ainda, discutida por Ronaldo Laranjeira e Marcos
Romano no artigo "Consenso Brasileiro Sobre Políticas Públicas do
Álcool" seria treinar garçons para controlar o abuso nos
estabelecimentos. Se não falta criatividade para criar anúncios,
certamente não faltam idéias para solucionar esse problema. É
necessário apenas que estas sejam colocadas em prática.
