terça-feira, 23 de setembro de 2008

Programa de índio

Josias de Lima tem 35 anos, mora em Formosa do Rio Preto, Bahia. Tem casa e dois filhos. Um sujeito aparentemente comum. Mas quem viu Josias na última semana de agosto não diria isso. Nos dias 26, 27 e 28 ele foi índio. E não um índio comum, mas um injustiçado, que brigava por terras na reserva Raposa Serra do Sol. Com braços e rosto pintados com linhas pretas e vermelhas ele acompanhava a procissão que marchava em defesa de seus direitos, na capital do país. A aparência até enganava. Pele morena, cabelos curtos, bem lisos, e claro, o olho meio puxado. Seu físico, não muito atlético, bem poderia pertencer a um índio mais acostumado às redes do que à caça.

Josias queria apenas conhecer Brasília. Pegou carona em um ônibus que trazia índios que vivem na Bahia, perto de sua cidade. Eles vinham apoiar aqueles que vivem na reserva. Josias aproveitou a oportunidade. Assim como eles, eram esperados também outros índios de diversas regiões e integrantes do Movimento dos Sem Terra (MST) e do Movimento de Apoio ao Trabalhador Rural. A manifestação deveria estar lotada, seria fácil abandonar o grupo. Mas, no dia 27, poucas pessoas faziam volume na frente do Supremo Tribunal de Justiça (STF), onde era julgada a demarcação da terra indígena. Para dar volume ao protesto, Josias foi convidado a se vestir como índio. Pintado, não teve escolha a não ser abraçar a causa e adiar o turismo.

Quem o reconheceu perambulando pela Esplanada dos Ministérios foi Josivaldo de Oliveira, conterrâneo e amigo de infância. Mesma idade, um físico menos avantajado, moreno, cabelos curtos. De segunda a sexta, manhãs e tardes, ele está lá, com seu carrinho, na sua já reservada sombra em frente ao Ministério da Previdência Social e do Trabalho e Emprego. As manifestações movem, além do mercado de figurantes, o trabalho informal. Pessoas têm seus lucros aumentados em dias de agitação. Josivaldo é uma dessas figuras, ganha a vida vendendo água de coco. Josias viveu por três dias a empolgação e vontade de mudar de uma manifestação. Josivaldo convive com elas . Não se surpreende mais com gritos e faixas, que ele conta serem bem freqüentes. E até agradece. Sejam servidores públicos, integrantes do MST, do Movimento Estudantil ou mesmo religiosos, uma coisa é certa, protestar dá sede.

As barraquinhas, tendas, carrinhos acompanham o traçado da Esplanada. Em frente ao Ministério da Agricultura, Pecuária e abastecimento, vê-se outro carrinho de água de coco. O dono, Aílton Nunes, trabalha no local há apenas duas semanas. “Já estive em muitos lugares, mas esse daqui tem a melhor clientela.” Pouco tempo de Esplanada e já tem histórias pra contar. Já viveu dias de protesto. No dia 10 de setembro, presenciou a marcha contra o aborto e pela vida. “Ah, aí as vendas foram boas”, afirma. Aílton ocupa um lugar vantajoso. Entre o Ministério da Agricultura e o Ministério do Planejamento, está o “Espaço do Servidor”. Uma tenda armada já para fins de motim. Muitas concentrações ocorrem lá.

Do outro lado da tenda, Elda Carvalho. Apenas 27 anos de idade e cinco de Esplanada. Em dias comuns, ganha em torno de 100,00 reais. Quando tem protestos, as vendas dobram. É a única da rua a vender salgados, pastéis, hamburgers. Comidas fáceis de se comer e carregar. Elda trouxe até a mãe, Erina Carvalho, aposentada, que vende balas ao seu lado.
O mercado das manifestações vai além dos vendedores informais. Para atrair gente e se fazer ouvir é comum o aluguel de um trio elétrico, ou carro de som. Quem enriquece com essa parte é Guimarães Lima. Sujeito que se apresenta assim, com os dois sobrenomes. Os carros ou caminhões variam entre 400,00 e 3700,00 reais. Eles já vem com microfone e som para os quatro lados. No momento, Guimarães está ocupado com as eleições nas cidades do entorno, mas garante que já recebeu ligações até da Bahia. “É um negócio promissor e existem poucas pessoas na área”.

Toda semana a Capital Federal recebe diversas pessoas vindas de todo o país na esperança de serem ouvidas e de terem seus direitos garantidos. Mas com tanta banalização, elas acabam virando meros espetáculos, onde os atores principais são os líderes sindicais, turistas viram índios e vendedores ganham seu sustento. Ainda vale a pena protestar para pessoas que assistem a isso quase todos os dias? “Claro, a gente tem que levar a sério. As coisas tem que mudar”, acredita o novo vendedor de cocos da Esplanada, Aílton. E, enquanto pensarem como ele, o sustento do mercado das passeatas está garantido.


Além das águas quentes

Caldas Novas. Onde muitos brasilienses vão passar suas férias ou final de semana. Lugar onde velhinhos encontram sua morada, tranquila e com águas quentes. Lugar onde todo mundo é parente de todo mundo ou pelo menos sabe quem é da família de quem.

Onde o sorveteiro é parente da vereadora, o prefeito apóia um candidato chamado Magal. Magal anuncia festa em puteiro. O puteiro se chama Kelly Empreendimentos. Os policiais conhecem Kelly e afirmam que ser cafetina não é crime. A outra candidata é dona do enorme hotel "Di Roma" e acusa Magal de cheirar cocaína, oferecendo parte de seus bens caso seja provado o contrário. Uma cidade que no período de um mendato teve cinco prefeitos. Mesmo assim as passeatas lotam e cheios de esperança, adultos e crianças abanam banderinhas. Eles ainda correm sem cansar atrás de carros de som que passam quase na velocidade da luz com candidatos em cima. O canditado adptou um funk para a campanha. O funk não saiu da cabeça ao menos das pessoas que estavam comigo. Obejetivo cumprido.

Em uma cidade como esta, dois jornais circulam diariamente. Um deles, o CNN, Caldas Novas Notícias, circula apenas um dia após seu suposto fechamento. Ou seja, o jornal de quinta circula na sexta. Com duas folhas, ele dá informes e notícias rápidas e coloca muitas fotos de festas e anúncios. Claro que Kelly Empreendimentos está presente, não apenas nos anúncios, como nas fotos de suas festas. A dona de uma pousada diz: "Tem como ficar informada por aqui? Ainda bem que existe a Internet".

Em três dias, vimos e ouvimos muita coisa, a maioria da boca do povo, que sabe de tudo que se passa naquele lugar. Muitos tem medo de falar dos ricos, que mapeam a cidade com suas propriedades. Mas sempre sabem de tudo. Bom ser uma cidade pequena, assim eles podem conversar, fofocar, se informar e não depender tanto dos veículos de comunicação. Inacreditável é o fato de existir gente como um senhor que encontramos em uma lanchonete, senhor Richter, que comprou nosso jornal, e ainda por R$1,oo. É a vontade de saber e a esperança de ser aquela uma publicação melhor
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Senhor Richter com seu jornal.