segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Esquinas

Tirou o espelho da bolsa. Arrumou a mecha de cabelo que insistia em cobrir seus olhos. Aproveitou para retocar o batom cor de pitanga e tirou a última balinha de menta que restara da noite anterior.Ao longe, avistou um carro que lhe era familiar. Sabia que ele passaria vagarosamente, analisando todas as garotas da rua antes de parar na sua frente. Fazia isso para lhe provocar ciúmes, mas sabia que era por ela que viera. Ajeitou a minissaia e o sutiã, deu um suspiro desanimado e entrou no carro. As luzes da cidade passavam rapidamente fazendo contraste com o tédio em seu olhar. Ele não puxaria conversa agora, nem depois. Ela não fazia questão.

Chegando no apartamento mal iluminado, nenhuma cerimônia ou preparação, ele não era do tipo que se importava com preliminares. O quarto era o retrato do desleixo. Lençóis amassados jogados em um canto da cama e cortinas carcomidas fedendo a naftalina. As janelas, que pareciam nunca terem sido abertas, tornavam o ambiente ainda mais abafado e incômodo.

Ele a agarrou por trás. Apertou seus seios e soltou em seu pescoço um bafo acre para, em seguida, puxar-lhe a saia com vigor. Ela estava farta de tudo aquilo, mas iria até o fim. Sempre ia até o fim. Respirou fundo, desvencilhou-se das mãos dele e dirigiu-se para o banheiro que ficava no canto oposto do quarto. Olhou-se no espelho buscando uma mulher, mas o que encontrou foi apenas um borrão de maquiagem e um par de olheiras. Não queria estar ali. Não hoje.

Batidas na porta.

- É pra hoje?

Concentrou toda a paciência que ainda lhe restava e respondeu da forma mais doce que conseguiu. Por fim, abriu a porta e deixou-se conduzir até a cama. As carícias rudes recomeçaram, mas ela parecia não se importar mais. Gemeu e sussurrou umas e outras coisas já decoradas enquanto passava os olhos pelos objetos espalhados no chão. Queria fugir dali.

Parou por um instante, distraiu-se com um par de tênis marrom. Os cadarços embolados e encardidos a fizeram lembrar das velhas botinas de seu pai. Foi tomada por uma nostalgia atípica que inebriou seus pensamentos. Lembrou-se de sua vida antes de se entregar aos braços de homens desconhecidos. Fechou os olhos e visualizou sua primeira vez, com o namorado de quem tanto gostava. A situação era completamente diferente da que vivia agora. A pele do rapaz era quente, e ele cheirava bem.

O pensamento foi, bruscamente, interrompido por um puxão em seu braço. Ele roçava seu corpo suado no dela e mantinha uma expressão maliciosa no rosto. Parecia indiferente ao seu prazer, só queria se satisfazer.

A repetição interminável dos movimentos a fez lembrar das batidas ritmadas da colher de pau misturando a massa de um bolo. O de chocolate era seu preferido. Sem perceber, deu um sorriso que foi o suficiente para que ele acelerasse.

- Tá gostando, né?

Ela meneou a cabeça positivamente, assentindo, distraída. Continuava imersa em suas lembranças. Há quanto tempo não comia um bolo de chocolate gostoso. Sua vida havia mudado muito. Ela havia mudado... No entanto, não se arrependia. Os programas lhe davam um bom dinheiro embora a solidão em meio a tantos homens a fizesse questionar-se. Já havia cogitado largar tudo, recomeçar, mas esses planos não passavam de utopia.

Voltou à realidade quando percebeu que o corpo que pesava sobre o seu estava imóvel. Alívio.

- Pronto. Acabou.

- É. Acabou...





Com Ana Clara Martins, Mariana Haubert, Manuela Marla, Isabela Horta e Maíra Moraes

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