Era Ana Maria como tantas outras Anas que também eram Marias. “Nomezinho chocho”, pensou. Aliás, sempre se perguntou por quê sua mãe lhe dera esse nome. Na noite daquele dia, então, teria que mostrar pro mundo que era dona de tamanha falta de criatividade. Exatamente à meia-noite estaria numa fila gigante de garotas bem arrumadas, maquiadas e com lindos vestidos, quando ouviria o que sempre sonhou em não ter que ouvir mais: “Ana Maria Soares da Costa”. Nesse momento, teria que sorrir mais que antes, porque todos estariam olhando para ela, teria que esperar infinitamente até chamarem o próximo nome da lista para enfim, quando ninguém mais estivesse olhando, poder xingar o quanto quisesse.
Mas que coisa essa de ter crise com o nome logo horas antes do tão esperado baile de formatura. Tudo bem que nunca gostou, mas nunca quis morrer como queria agora. “Deve ser nervosismo, logo passa”. Mas só fez piorar. Ana ligou a televisão, pelo menos se distrairia. “Bolinhos Ana Maria, para aquele lanche especial”. “Ah, não!”. Desligou na hora. Foi ler um pouco. Desde que chegou da escola estava nessa de não querer mais o nome que tinha. No dia anterior marcou salão, comprou vestido, sapato, tiara. Seria a mais linda da festa, certeza. Porém de manhã percebeu que tinha alguma coisa errada. O vestido estava perfeito, o sapato também, a maquiagem e o cabelo certamente ficariam igualmente lindos, mas uma coisa ela não ia poder arrumar. Não tinha como passar um pó no próprio nome!
“Mariazinha, vem almoçar”, era sua mãe chamando. A própria, a causadora de toda a desgraça. E “Mariazinha”? O sangue lhe subiu a cabeça. Belo dia para se inventar um novo apelido. Como se o nome já não fosse por si só a união de toda sem gracice do mundo. Foi almoçar bem de má vontade. Beliscou um pouco do arroz, colocou uma coxinha de frango no prato, mas só para dizer que pegou uma. A única coisa que fez foi brincar com os pedaços. Pela sua cabeça não parava de passar o momento que teria que se dirigir para o palco ao som do seu... Não queria mais imaginar. “...da Costa”, ufa, teria acabado. Ia dançar e ia sair dali, não podia ter um ataque de nervos por causa disso, coisa mais besta.
Vinte minutos depois do almoço, só mais exatamente cinco horas e quarenta minutos. O telefone toca: “Oi tia Inês, a Ana está?”, era Juliana, sua melhor amiga desde que podia se lembrar. “Vou chamar, Ju. E a sua mãe, como está?”. Ana Maria escutou de longe, pronto, já viria, se preparou, “Ana Maria, telefone”. Falou com a Ju o mais rápido que pôde para evitar a repetição de Anas e se controlou para não cuspir fogo toda vez que o escutava.
Foi ler mais, cansou, foi ver TV. Sessão da tarde. Até aí ótimo, mas então veio a propaganda. “Filha, aproveita que deu uma pausa aí e entrega esse livro na vizinha”. “Mas mãe...”, “Vai lá, Ana Maria Soares da Costa, é só a vizinha, e pode tirar essa cara de birra, gastei uma fortuna pra você ficar de marra na formatura?”. Não podia acreditar, foi tudo de uma só vez, o nome completo! “Respira fundo... Não mãe, parei” e foi entregar o tal livro.
Eram quatro horas, começou a se arrumar para ir ao salão. Ele estava marcado para cinco da tarde, mas como pegaria o metrô e mais um ônibus, queria sair mais cedo. Tomou banho e foi se vestir. No meio de suas roupas encontrou uma blusa da Pequena Sereia que ganhou quando criança. O desenho era lindo, nem se lembrava que ainda a tinha. Virou-a para poder dobrá-la. O sangue lhe subiu a cabeça. Será que era assim todos os dias e hoje estava especialmente irritada ou será que o nome lhe perseguia mesmo? Até atrás da blusa. “Que moda ridícula! Até parece que algum estranho vai chamar só porque já sabe uma forma de você olhar”. Dobrou com raiva, pegou a primeira coisa que viu, vestiu e saiu de casa.
Foi resmungando até o cabeleireiro. Quando chegou, mais uma: “Boa tarde, dona Ana”. “Boa”. “Quer dizer que vai se formar essa noite, é?”. “É”. “Infelizmente não vai dar tempo de trocar de nome antes”, pensou. Mas que droga de cisma, pior que agora não conseguia mais tirar isso dos pensamentos. Só conseguia ver a hora que seria chamada à meia-noite. Ficou tão entretida com seu desespero que nem viu o tempo passar. Olhou-se no espelho com indiferença, pagou e voltou para casa.
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