domingo, 5 de outubro de 2008

Zé Fumaça

“Vem cá, você conhece o Zé Fumaça? Deixa eu te contar a história”. É assim que Marcílio Sales, o Cangaceiro da vida, começa a conversar com os vários curiosos que chegam a sua exposição. Em meio a tantas apresentações na Semana de Extensão da Universidade de Brasília, ela se destaca. Logo de frente está o tal Zé Fumaça. Um boneco em tamanho real, feito artesanalmente, deitado como um morto com uma espingarda de madeira na mão.
“Esse já foi um belo americano. Mas, começou a fumar e acabou assim.” conta a ajudante de Marcílio, Luzia Alves dos Santos. Marcílio complementa que ele sofreu de todos os males que o cigarro pode causar. Foi enfisema pulmonar, câncer em várias partes do corpo, queda de dentes. “O corpo dele não agüentou. Às quatro horas da tarde vamos enterrá-lo.”

Logo atrás de Zé Fumaça entende-se o por quê de ele estar ali. São vários cartazes contra o tabagismo. Caixas de cigarro exibindo os avisos do Ministério da Saúde com fotos de vítimas, uma imagem de uma pessoa com todos os males que o fumo pode causar. É uma montagem de fotos reais que corresponderia ao Senhor Fumaça, caso ele fosse real. E uma lista das doenças que podem se desenvolver em um fumante.

A exposição não pára por aí. Começam então cartazes sobre a dengue. Explicando como ela se desenvolve, como combatê-la e onde encontrar focos de reprodução do mosquito transmissor, o Aedes aegypti. Para ilustrar, mosquitos de metal, de quase o tamanho de crianças. Coloridos e chamativos, são para mostrar para aqueles que nunca viram e não tem acesso à televisão ou internet, como é a praga. Pelo menos é o que defende o Cangaceiro.
Tratado o assunto da dengue, entra-se em outro: o desperdício de água. Painéis que mostram água em abundância são acompanhados por vasinhos com plantas verdes. Em oposição, fotos do sertão nordestino e da seca. Alega-se que, se há desperdício, é o Nordeste que sofre. Embaixo das fotos, vasinhos com plantas murchas.

Finalizando, uma escultura de metal do inseto barbeiro, transmissor da doença de Chagas. “Fui em que fiz, construí todas. O barbeiro e os mosquitos”, orgulha-se Marcílio. E ainda dois quadros com fotografias antigas da UnB, que segundo Luzia foram encontrados no lixo. Ele diz tratar ainda do uso de drogas pela juventude. Infelizmente esse assunto não estava retratado.

O Cangaceiro da vida é um homem que faz. Ele não se contenta em ver a sociedade enfrentando tantos problemas e ninguém ajudando. Ele tem 39 anos e nasceu no Piauí, descendente de família de cangaceiros. Veio para Brasília com 30 e desde então trabalha na serralheria da prefeitura da Universidade de Brasília. Em 1990 enfrentou uma grande seca em sua cidade. Viu pastagens inteiras sendo destruídas e os animais do pai morrerem. Não tinha comida decente, comia feijões duros com farinha.

Quando veio para Brasília, espantou-se com a facilidade com que funcionários, alunos, professores, desperdiçavam a água. “Na prefeitura eles ficam meia hora lá com a torneira ligada só pra lavar aqueles bigodes”. Daí veio a idéia de desenvolver um trabalho sobre o desperdício de água. Enquanto seus amigos e parentes passavam aperto no Nordeste, em Brasília, ninguém valorizava o que tinha.

Com a dengue, o tabagismo e a doença de chagas foi diferente, ele não sofreu dessas doenças, mas acompanhou o sofrimento de amigos. “Cheguei até a enterrar um”. Quanto a dengue, a UnB para ele abriga muitas lavas do inseto transmissor. Ao lado da mostra existe uma espécie de bueiro que estava alagado por causa das chuvas. Marcílio mostrou as minhocas minúsculas se contorcendo “É de dengue, certeza.” Ele já alertou a prefeitura, mas preferem não alardear para não causar pânico na Universidade. Em seus intervalos para o almoço, o Cangaceiro procura focos pelo campus. Avisa a Secretaria da Saúde, que manda funcionários para resolverem o problema. Foi em um curso na própria Secretaria que Marcílio construiu suas esculturas. Apenas três estavam expostas, mas ele garante ter mais.
A doença de Chagas, ela é um mal sofrido por seu irmão. O tabagismo é vivido por amigos e parentes, um deles inclusive chegou a falecer. “Lá no meu setor quatro pessoas fumam. Só não fuma eu e um amigo meu”. Ele leva essa mostra aos jovens alertando de todos os perigos. Durante o enterro do Zé Fumaça, ele pede para que os fumantes apaguem seus cigarros e joguem em cima do corpo em um sinal de respeito.
Ele expõe em escolas e Universidades. Faz isso como trabalho voluntário e se queixa da dificuldade de transporte. “As pessoas deviam incentivar um projeto como esse, mas não consigo chegar a vários lugares, não tenho como ir”. Chegaram convites do Rio de Janeiro, Piauí e Maranhão. Infelizmente o orçamento não cobre as despesas e as visitas não são possíveis.
Além dos painéis, ele faz apresentações teatrais. Monólogos que mostram como seria a vida de um jovem drogado e como ela melhoraria caso ele resolvesse estudar. Trata do alcoolismo, da seca, do tabagismo. E ainda diverte a platéia com imitações de pessoas famosas. Com as peças, chegou à Samambaia, Guará, Ceilândia, além de apresentações na UnB. Ele faz parte do grupo de teatro “O Cangaço”, coordenado por Luzia. Antes eram quatro os membros, hoje só restam os dois.
O objetivo de Marcílio e Luzia é ensinar para as pessoas que se pode viver melhor. É mostrar tudo isso através da arte, ou como diz Luzia “ensinar a arte de viver”. E, mesmo que não haja grades mobilizações, mesmo que não cheguem em todos os lugares que gostariam, eles continuam, fazem alguma coisa.



2 comentários:

Batman disse...

Belíssimo texto Mari.

Parabéns!

=****

AHHH. Eh o Bruno do Candanguinho que vos posta.

uashuashusahusa.

Jeronimo disse...

Ei, que belo texto querida. Parabéns. Teu blog é bem interessante, diga-se de passagem.

Abraço